Sobre mim – Amanda Ferreira Gomide

Sobre mim – Amanda Ferreira Gomide

Este memorial oportuniza conhecer minha trajetória acadêmica e permite refletir sobre todas as atividades realizadas em que atuei tanto na escola quanto na Universidade, e também sobre algumas produções que têm como resultados sobre elas. Além de redigir o meu processo de maturidade perante cada etapa da minha vida, procurei discorrer como se deu minha escolha no curso de História, no qual sou graduada pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, e atualmente estou no Doutorado em Educação pela mesma. Decidi abordar minha escolha pelo curso de História por ser uma graduação que me colocou como professora e pesquisadora na área acadêmica na Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Portanto, descrever este memorial obedece a uma ordem cronológica da minha vida e minha carreira como professora, o que facilitará a compreensão de minha pessoa e também dos leitores sobre os fatos. Por fim, destaco algumas atividades ligadas à pesquisa, produções científicas, entre outras.


2. O PRINCÍPIO DE TUDO

Sobre a reflexão do início da minha carreira de vida, os primeiros detalhes começam com uma criança de 4 a 5 anos, memórias que consigo lembrar a partir de então. Lembro dos meus pais bem jovens.

Meu pai vem de uma família da zona rural, estudou até a quarta série do ensino fundamental, começou a vida sempre trabalhando no campo para famílias ricas que tinham seus sítios e fazendas, sempre cuidando dos animais, plantando e lutando para dar o sustento para nossa família que tinha se iniciado. Minha mãe, mulher que sempre trabalhou cuidando das grandes casas, lavando, passando, cozinhando, estudou também até a quarta série do ensino fundamental e também iniciou sua vida na zona rural. Os dois se conheceram, casaram e nasceu a pessoa que descreve este memorial.

Minha vida educacional começa aos 4 anos de idade, quando meus pais resolveram me colocar em uma escola de ensino infantil em Sacramento-MG, minha cidade natal. Nessa época, meus pais trabalhavam em uma chácara próxima da cidade; meu pai cuidava da chácara e minha mãe dos afazeres domésticos e trabalhava também fazendo faxina. Nessa época, lembro do básico: contato com as crianças da minha idade, conhecimento sobre cores, sabores – o que quase toda criança vivencia nesta idade, conhecendo o mundo.

Lembro que logo após a morada na chácara, o advogado dono quis vender o imóvel e meus pais tiveram que buscar outra morada, e minha irmã já tinha nascido nessa época. Fomos para uma fazenda bem longe da cidade, moramos por lá por dois anos, e nessa época tive meu primeiro contato com escola de zona rural. Lembro do primeiro teatro que participei, do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Nessa época já gostava muito de desenhar flores, cantar e andar de bicicleta.

Então, já com quase 6 anos, minha família voltou para a cidade de Sacramento-MG, e terminei minha escolaridade no ensino infantil com uma grande formatura – todas aquelas crianças, inclusive eu, com becas vermelhas e felizes porque começaríamos a ler e íamos para uma nova fase da vida.

Logo após essa fase, por volta de 1999, fomos para um outro sítio próximo da cidade, e fui para outra escola bem pequena na zona rural, a escola tinha cerca de 20 a 30 alunos, eram duas professoras que se dividiam nos ensinamentos com alunos de 7 a 10 anos. Existia também uma cozinheira que cuidava de todos os afazeres da escola. Naquela época, aprendemos algumas coisas sobre plantas, fazer horta, ler e escrever. Lembro do primeiro filme exibido para nós, foi naquelas televisões de tubo e vídeo cassete – assistimos o filme “O Rei Leão”, nunca esqueci desse dia.

Nesta mesma fase, organizávamos na escola festas juninas, Dia das Bruxas e, mais uma vez, alguns teatros que as educadoras elaboravam para nós, alunos, participarmos. Aprendi a gostar muito de ler e sempre gostava também de desenhar capas dos livros que lia e de artes. Em um final de ano, perto do Natal, e como as professoras perceberam que eu gostava muito de artes, me convidaram para cantar duas músicas em homenagem aos pais. Foi aí que me descobri como cantora nessa época e me interessei pelas ciências humanas.

Quando acabou essa fase dos meus 7 a 10 anos, não tinha mais como eu continuar na escola rural, por conta de não ter mais séries do ensino fundamental para eu dar continuidade aos meus estudos. Então, eu tinha a opção de pegar uma van de segunda a sexta às 4 da manhã para continuar os estudos em uma escola estadual na cidade de Sacramento-MG.

Nesta mesma época, fui para uma escola maior na cidade, foi ali que descobri alguns dos meus gostos. Minhas matérias preferidas eram, português, filosofia, história, geografia e artes. Foi quando me envolvi mais com o teatro, música, poesia e desenho. Nesta escola, na qual estudei durante 6 anos até terminar o ensino médio, tive grandes aprendizados; era uma escola muito humanitária que visava trabalhar todos os âmbitos sociais, pela arte e, principalmente, pela ciência, o que fez com que eu me enxergasse como ser humano e pudesse fazer minhas escolhas.

Quando terminei o ensino médio, ingressei no curso de Direito na UNIUBE, em Uberaba-MG. Viajava todos os dias da semana para cursar. Conhecendo as disciplinas e discutindo com amigos, percebi que não me enquadrava no curso. Então, decidi largar o curso de Direito e comecei a estudar para passar em uma universidade federal, minha grande vontade era entrar no curso de “História” na Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Voltei para o sítio onde meus pais estavam morando; nessa época, eles estavam trabalhando para um juiz e cuidavam do sítio dele, em um lugar bem longe da cidade.

Fiquei no sítio por volta de 8 meses estudando para o vestibular, até que uma amiga da família me convidou para ir para Uberaba-MG estudar no cursinho popular da UFTM antes do vestibular. Decidi ir, estudei bastante. Passei na primeira fase da prova, na época era da VUNESP, mas não passei na lista de chamada na segunda fase. Voltei para o sítio. Na época não existia WhatsApp, e uma amiga do cursinho me mandou uma mensagem no celular dizendo que eu tinha ficado na lista de espera, em 31º lugar, e que eu precisaria ir para Uberaba fazer a matrícula. Nunca fui uma aluna cem por cento na escola, mas para mim foi uma grande vitória esse dia, porque sabia que eu poderia ter mais conhecimento e mais experiência em minha vida, pois sempre fui curiosa por novas experiências.


3. GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Ao chegar na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba, para cursar História, foi um novo mundo de ideias. Não imaginava que iria adentrar em tantas criticidades, tantas filosofias de vida. Vi que História não era apenas aquela ensinada nos livros didáticos; a escola não era aquilo que eu vivenciei em minha trajetória, e sim um apanhado de visões. A condição financeira da minha família nunca foi suficiente para sobreviver em Uberaba-MG, mas descobri a assistência estudantil, que foi algo muito importante para eu continuar meus estudos.

O processo de estágio foi tranquilo, pois eu já tinha tido contato com a escola antes mesmo do estágio. Logo tive interesse em conhecer a escola mais a fundo e entrei no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) em História, guiado pelo Professor Doutor Rodrigo de Freitas Costa. O PIBID foi um programa que me fez crescer como professora durante 4 anos, principalmente pelas reuniões e discussões sobre o âmbito educacional. As trocas de grande importância fizeram com que eu me apaixonasse pela escola, especialmente em criar projetos muito bem visualizados, ligados à cultura, identidade, musicalidade, teatro, entre outros. Além disso, conheci vários tipos de escolas em Uberaba-MG. Trabalhei na Escola Nossa Senhora da Abadia, Colégio Tiradentes e também na Escola Municipal Boa Vista.

A graduação me fez crescer como educadora. Foram muitos aprendizados sobre a história contemporânea, história afro, história social, teoria da história, entre outras temáticas historiográficas, que fizeram com que eu me apaixonasse pela história regional, principalmente pela história de Minas Gerais e do Triângulo Mineiro. Como meus pais vieram do campo e de uma cultura mineira muito forte, me apaixonei por descobrir mais sobre a trajetória da cultura do Triângulo Mineiro. Foi através de um povoado que é patrimônio histórico e cultural muito importante para a região, próximo da localidade de onde meus familiares vieram, que tive interesse em pesquisar sobre o “Desemboque”, situado no município de Sacramento-MG.

Como sempre vivi em um espaço rural durante quase toda a minha infância, sempre observei a cultura desses locais e tive curiosidade de pesquisar a fundo sobre esses espaços. Foi aí que tive a ideia, no PIBID, de fazer um projeto com os educandos sobre essa temática, de conhecer as raízes do Triângulo Mineiro através da musicalidade enraizada mineira. O projeto teve início já nos últimos anos da minha permanência no PIBID, com o título “Do Berço do Triângulo Mineiro à Musicalidade Enraizada”.

Os objetivos do projeto foram compreender o período colonial no território do Triângulo Mineiro na transição de sua formação populacional e urbana ao longo de sua historiografia. O objetivo geral foi falar com os educandos sobre os caminhos do Arraial do Desemboque, o “berço” situado no município de Sacramento-MG e no Triângulo Mineiro. O diálogo abordou sua origem e a cultura passada de geração em geração, quais os caminhos que levaram ao surgimento de novas cidades, como o Arraial do Desemboque está nos dias atuais e como o patrimônio histórico de extrema importância é tratado. Entendemos que, de alguma forma, fazemos parte desse passado e vivenciamos sua trajetória no presente.

Esse projeto foi além das relações entre cidadania e patrimônio cultural, sendo ligado à educação patrimonial. O objetivo inicial do projeto era proporcionar aos educandos uma compreensão do seu papel como indivíduos na região do Triângulo Mineiro, fazendo com que entendessem de onde vieram, diante do contexto da formação populacional e urbana, junto ao patrimônio histórico e cultural do povoado do Desemboque. O projeto “O Berço do Triângulo Mineiro à Musicalidade Enraizada” aconteceu na Escola Municipal Boa Vista, na cidade de Uberaba-MG, e teve como público-alvo alunos do ensino fundamental (anos finais). Deste projeto nasceu minha monografia, que abordou o tema “Do Berço do Triângulo Mineiro à Musicalidade Enraizada: o Desemboque e as Tradições Preservadas nos Séculos XX e XXI”, orientada pela professora Dra. Glaura Teixeira.

O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) me proporcionou uma experiência única na educação, ensinando-me a enxergar as problemáticas da escola e, mesmo com as dificuldades, ver que é possível conscientizar sobre temas importantes para a sociedade brasileira. Diante disso, surgiu em mim a esperança de dar continuidade à pesquisa sobre o povoado do Desemboque no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Consequentemente, nasceu meu interesse pela educação, fruto das diversas vivências proporcionadas pelo PIBID, que me fez enxergar não apenas como professora, mas também como pesquisadora.


4. MESTRADO EM EDUCAÇÃO

Em 2018, após me graduar em licenciatura em História pela UFTM, tive grande interesse em levar tudo o que passei e aprendi para um novo projeto. Decidi levar a educação patrimonial do “berço do Triângulo Mineiro” para a Pós-Graduação em Educação, e assim fiz. Porém, percebi que não estava totalmente preparada na época. Passei em todas as fases do processo, mas não consegui defender o meu projeto na arguição.

Em 2019, decidi me especializar em licenciatura em Pedagogia, me formei em julho de 2024, através da modalidade EAD pelo Grupo Educacional FAVENI, Polo Uberaba. Tenho algumas críticas sobre o ensino a distância, mas me envolvi por gostar muito do âmbito educacional. Nessa mesma época, não havia desistido da Pós em Educação na UFTM, então comecei a reformular meu projeto. O projeto que me fez ingressar no mestrado foi “Educação Patrimonial e o Desemboque, o ‘Berço’ do Triângulo Mineiro: Aluno e Professor sob o Prisma do Conhecimento Histórico e Cultural Contemporâneo”.

Em 2019, enfrentei dificuldades para continuar morando em Uberaba por questões financeiras. Trabalhei em diversos empregos, como administrativo, cozinheira, manicure, recepcionista de hotel, prevenção de perdas no supermercado Bretas, chapeira de hamburgueria e, no fim de 2019, trabalhei como professora de História em uma escola particular por três meses. Não desisti do sonho de ingressar na Pós-Graduação em Educação e tentei novamente com o mesmo projeto, mas com algumas alterações. Passei em todas as fases do processo seletivo e consequentemente passei em 3º lugar como bolsista CAPES.

Minha pesquisa sofreu algumas alterações após discussões com minha orientadora, mas não se distanciou do tema do “berço” do Triângulo Mineiro. O título da minha dissertação é “Educação Patrimonial na Educação Básica: Uma Proposta de Material Didático sobre o Desemboque no Triângulo Mineiro”. A proposta desta pesquisa é discutir a contribuição do ensino de educação patrimonial na educação básica, destacando a importância do professor colocar em diálogo a história e a cultura de um determinado local em sua prática docente. O objetivo é transformar um conjunto de memórias que possam estar sendo esquecidas e estimular novas ideias.

Mais especificamente, o propósito foi produzir uma proposta de material didático, a partir de levantamento bibliográfico e pesquisa documental, para turmas de ensino fundamental (anos finais), com o objetivo de promover o conhecimento das memórias e identidades do Triângulo Mineiro através do “berço do triangulino”, o Desemboque. Originado no século XVIII, no contexto do ciclo do ouro, o Desemboque deu início aos primeiros povoados do Triângulo Mineiro, sendo hoje distrito da cidade de Sacramento-MG. Sua história marca um processo de memórias, patrimônio histórico e cultural, e pode oferecer uma oportunidade para ampliar esta temática na prática docente.

A defesa da minha dissertação de mestrado aconteceu em 25 de agosto de 2022. Essa fase me trouxe muitos conhecimento e maturidade como professora, pesquisadora e me tornei Mestra em Educação.

5. DOUTORADO EM EDUCAÇÃO

Após me tornar mestra em Educação, as dificuldades sociais econômicas foram se acarretando, pois minha bolsa de mestrado havia se encerrado. Portanto, busquei entregar currículos em várias escolas privadas e tentei buscar aulas também no Estado como designada temporária. Porém, não tive muito sucesso. Nesse meio tempo, comecei a trabalhar aos fins de semana como Barmaid e garçonete. E já preparava o meu projeto de pesquisa para tentar o Doutorado em Educação em setembro de 2022.

Sem muita expectativa de aprovação no Doutorado, fui aprovada para começar uma nova empreitada em março de 2023. Atualmente, estou no meu segundo ano de Doutorado, a minha tese tem como tema:

“EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: PRODUÇÃO DE UM MATERIAL DIDÁTICO PEDAGÓGICO PARA A VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL DO DESEMBOQUE”

Continuarei pelo mesmo ideal das minhas pesquisas anteriores, porém, minha tese envolverá efetivamente a produção de um material didático em prol da valorização do Patrimônio histórico e cultural de Desemboque- MG.

6. CRIAÇÃO DO MENTORIA ACADÊMICA

Nunca me imaginei como Mentora, mas, quando comecei o meu doutorado, estava em uma situação muito complicada financeiramente, já que o programa ainda não tinha bolsas de estudos para o Doutorado. Continuei procurando escolas para dar aula e, por coincidência na época, consegui duas aulas de Patrimônio Cultural em uma Escola Estadual de Uberaba chamada Quintiliano Jardim, onde lecionei para o ensino médio. Foi um vitória, pois fiquei 10 anos tentando ter uma oportunidade na rede pública! Em seguida, consegui mais uma aula de história na zona rural do município.

Nesta mesma época, trabalhei em uma ONG de adolescentes e crianças carentes, pois um dos meus sonhos era ter uma experiência com crianças menores. Fiquei como educadora social substituta na Casa do Adolescente Guadalupe por 4 meses, ao mesmo tempo em que segui com as aulas na rede estadual.

Em abril 2023, decidi criar o Mentoria Acadêmica, e o intuito era de formar esta rede para mudar a minha realidade social, mas também para ajudar aqueles que passam dificuldades em suas pesquisas acadêmicas como um dia eu passei. O pensamento foi: como eu sempre ajudei as pessoas à minha volta em trabalhos acadêmicos, por que não criar uma rede? Foi o que eu fiz!

No início, o projeto nasceu para ajudar alunos a entrarem nos programas de pós-graduação de mestrado ou doutorado, e conseguimos 5 inscritos. Quatro tentaram mestrado e um passava por dificuldades em seu TCC e demais trabalhos acadêmicos.

E assim nascemos! Graças aos estudantes que acreditam nesse projeto e decidiram me dar um voto de confiança. Como retribuição, hoje faço os nossos inscritos acreditarem que eles são capazes de realizarem seus sonhos de ingressar em programas de pós-graduação!

Agora, Mentoria Acadêmica está chegando a quase 30 alunos. O propósito aqui é ajudar alunos na escrita de artigos, TCCS, Dissertações e teses. Somos uma rede humanizada, que preza por ajudar aqueles que realmente precisam e que acreditam em nosso trabalho.

E não paramos por aí, pois acredito que podemos fazer mais! Deixo o meu agradecimento aos meus alunos que prezam sempre estar conosco nesta empreitada.

Por fim, se você está lendo este memorial e se identificou com minha história, não hesite em buscar ajuda! Venha ser o próximo Astronauta do Mentoria Acadêmica. Bora Rumo Bom!